Ao escreve sobre um determinado assunto ou determinada situação, o jornalista nunca traduz, ou transmite, a realidade metafísica exactamente tal como ela é. É uma tarefa impossível de realizar: pois se o dito assunto ou a dita situação, por exemplo, envolve uma multidão, existirão múltiplas realidades. O jornalista cria uma nova realidade para explicar o que está em causa: devido a natureza complexa da sua profissão, podemos dizer que é uma realidade baseada em fundamentos jornalísticos, a realidade de um jornalista. A transformação de um simples facto numa informação provoca automaticamente uma modificação nos valores que ela tinha inicialmente. Por exemplo, quando um jornalista comunica ao seus leitores que uma fábrica acaba de fechar as portas, apesar do artigo ser acompanhado por uma fotografia onde se pode ver os trabalhadores a manifestarem-se em frente da fábrica, ele nunca conseguirá transmitir com um pequeno texto formatado e limitado pelo espaço disponível no jornal todas as informações da situação e tudo aquilo que se pode saber ou sentir se fossemos um dos trabalhadores que acaba de perder o seu emprego. Uma parte da informação é comunicada mas não a realidade de cada pessoa presente.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
domingo, 31 de janeiro de 2010
A transformação da realidade pela comunicação: 3. O jornalismo – uma comunicação da realidade
O jornalismo comunica os dois tipos de realidade que até agora invocamos: ele nos mostra o mundo e ao mesmo tempo diz o que ele é e aquilo que significa ou representa. O jornalismo televisivo quer constantemente mostrar a realidade e provar que aquilo que mostra é bem real: “O importante é a ligação e o seu “efeito do real”: quem fala está presente no local, eis o “efeito do real”; é uma “verdadeira” testemunha e isso basta. Este sistema leva o verdadeiro jornalismo de investigação à ruína, pois uma “testemunha” […] transforma-se, na ideologia do directo, um valor absoluto, coisa também exigida a todos os jornalistas.”[3]. As imagens vêm ao mesmo tempo acompanhadas de comentários que explicam o que elas estão a mostrar. As testemunhas são entrevistadas para que elas possam exprimir as suas realidades físicas e metafísicas. O telespectador descobre assim uma realidade previamente apresentada e definida com determinados valores e representações. O telespectador limita-se a acreditar ou a não acreditar no comunicador.
[3] "L’important, c’est le branchement et sont «effet de réel» : celui qui parle est sur place, cela est une garantie d’authenticité, voilà l’«effet de réel» ; c’est un «vrai» témoin et cela suffit. Ce système signe la ruine du véritable journalisme d’enquête puisqu’un «témoin» […] devient, dans l’idéologie du direct, une valeur absolue, et que l’on exige de tout journaliste qu’il le devienne." Ignacio Ramonet, La tyrannie de la communication, Paris, Galilée (Folio actuel), 1999, p. 59.
[3] "L’important, c’est le branchement et sont «effet de réel» : celui qui parle est sur place, cela est une garantie d’authenticité, voilà l’«effet de réel» ; c’est un «vrai» témoin et cela suffit. Ce système signe la ruine du véritable journalisme d’enquête puisqu’un «témoin» […] devient, dans l’idéologie du direct, une valeur absolue, et que l’on exige de tout journaliste qu’il le devienne." Ignacio Ramonet, La tyrannie de la communication, Paris, Galilée (Folio actuel), 1999, p. 59.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
A transformação da realidade pela comunicação: 2. A comunicação e a realidade
Constatamos que a comunicação está na base da construção dos valores que atribuímos à realidade física. Esta comunicação, esta troca de informação sobre o meio que nos envolve, esta interacção constrói em cada um de nós uma realidade, uma visão do mundo. Construímos uma realidade comunicando-a.
Parece existir entre as diferentes formas de comunicação uma forma cujas as propriedades são mais propícias para comunicar a realidade: a comunicação por via da imagem: “Como afirmam os especialistas em comunicação: a imagem, quando é forte, oblitera o som e o olho vence sobre o ouvido. Algumas imagens são hoje muito vigiadas, ou, para ser mais concreto, algumas realidades são estritamente proibidas à imagem, sendo este o melhor meio para as ocultar. Não há imagens, não há realidade.”[2]. É importante perceber isso: antes da existência de uma comunicação que nos vai permitir de construir a nossa própria realidade, a nossa visão do mundo, existe uma comunicação do mundo, uma comunicação da realidade física.
Se cada pessoa tem um acesso único ao mundo, então todas as pessoas têm uma visão única do mundo. O problema desta afirmação reside na existência dos médias de informação que generalizam o acesso à realidade. Utilizaremos um exemplo para explicar esta situação: quando vemos na televisão um sítio que não conhecemos e onde nunca estivemos, tomamos naquele instante conhecimento da existência de uma pequena realidade física. Associamos depois a esta nova realidade física determinados valores, ou seja considerações, significações, criamos a nossa realidade sobre este pequeno pedaço do mundo que acabamos de entrever no nosso pequeno ecrã. Ao mesmo tempo muito outros telespectadores vão também tomar conhecimento deste sítio e criar considerações. Existe uma tendência, causada pela existência dos médias, para uma universalização do conhecimento do real. Se de um lado isto permite aumentar o nosso conhecimento da realidade física do mundo, esta comunicação generalizada da realidade, associada a certas patologias da comunicação, pode ser do outro lado um instrumento para uma banalização e uniformização global da realidade metafísica.
A comunicação generalizada da realidade através dos médias e do jornalismo é o tema do próximo ponto.
[2] "Comme l’affirment les experts en communication : l’image quand elle est forte, oblitère le son et l’œil l’emporte sur l’oreille. Certaines images sont désormais sous très haute surveillance, ou, pour être plus précis, certaines réalités sont strictement interdites d’images, ce qui est le moyen le plus efficace de les occulter. Pas d’image, pas de réalité." Ignacio Ramonet, La tyrannie de la communication, Paris, Galilée (Folio actuel), 1999, p. 46.
Parece existir entre as diferentes formas de comunicação uma forma cujas as propriedades são mais propícias para comunicar a realidade: a comunicação por via da imagem: “Como afirmam os especialistas em comunicação: a imagem, quando é forte, oblitera o som e o olho vence sobre o ouvido. Algumas imagens são hoje muito vigiadas, ou, para ser mais concreto, algumas realidades são estritamente proibidas à imagem, sendo este o melhor meio para as ocultar. Não há imagens, não há realidade.”[2]. É importante perceber isso: antes da existência de uma comunicação que nos vai permitir de construir a nossa própria realidade, a nossa visão do mundo, existe uma comunicação do mundo, uma comunicação da realidade física.
Se cada pessoa tem um acesso único ao mundo, então todas as pessoas têm uma visão única do mundo. O problema desta afirmação reside na existência dos médias de informação que generalizam o acesso à realidade. Utilizaremos um exemplo para explicar esta situação: quando vemos na televisão um sítio que não conhecemos e onde nunca estivemos, tomamos naquele instante conhecimento da existência de uma pequena realidade física. Associamos depois a esta nova realidade física determinados valores, ou seja considerações, significações, criamos a nossa realidade sobre este pequeno pedaço do mundo que acabamos de entrever no nosso pequeno ecrã. Ao mesmo tempo muito outros telespectadores vão também tomar conhecimento deste sítio e criar considerações. Existe uma tendência, causada pela existência dos médias, para uma universalização do conhecimento do real. Se de um lado isto permite aumentar o nosso conhecimento da realidade física do mundo, esta comunicação generalizada da realidade, associada a certas patologias da comunicação, pode ser do outro lado um instrumento para uma banalização e uniformização global da realidade metafísica.
A comunicação generalizada da realidade através dos médias e do jornalismo é o tema do próximo ponto.
[2] "Comme l’affirment les experts en communication : l’image quand elle est forte, oblitère le son et l’œil l’emporte sur l’oreille. Certaines images sont désormais sous très haute surveillance, ou, pour être plus précis, certaines réalités sont strictement interdites d’images, ce qui est le moyen le plus efficace de les occulter. Pas d’image, pas de réalité." Ignacio Ramonet, La tyrannie de la communication, Paris, Galilée (Folio actuel), 1999, p. 46.
sábado, 9 de janeiro de 2010
A transformação da realidade pela comunicação: 1. A realidade
A comunicação interfere na realidade? Pode ela a modificar? De que tipo de comunicação estamos nós a falar e como definir ou circunscrever a realidade (ou o real) potencialmente modificado? Que interacção existe entre os dois conceitos?
[1] "[…] on fait une confusion entre deux aspects différents de ce que nous appelons la réalité. Le premier a trait aux propriétés purement physique, objectivement sensibles des choses, et est intimement lié à une perception sensorielle correcte, au sens «commun» ou à une vérification objective, répétable et scientifique. Le second concerne l’attribution d’une signification et d’une valeur à ces chose, et il se fonde sur la communication." Paul Watzlawick, La réalité de la réalité. Confusion, désinformation, communication, Paris, Le Seuil, 1978, p. 137.
Antes de tentarmos saber se a comunicação tem o poder de modificar a realidade, é necessário compreender e definir o que chamamos a realidade ou o real. A realidade é geralmente reconhecida como todo o universo físico que podemos conhecer através dos vários sentidos do nosso corpo. A realidade é então um simples espaço que observamos. Eis agora uma outra perspectiva sobre o conceito da realidade que nos será de uma grande utilidade para compreender como a comunicação a pode modificar: “ […] fazemos uma confusão entre dois aspectos diferentes daquilo que chamamos a realidade. O primeiro faz referência às propriedades puramente físicas, objectivamente sensíveis das coisas, e é intimamente ligada a uma percepção sensorial correcta, num sentido “comum”, ou a uma verificação objectiva, repetível e científica. O segundo refere-se à atribuição de um significado e de um valor a essas coisas, e fundamenta-se sobre a comunicação.”[1]. Apesar de podermos observar com os mesmos meios o mundo que nos rodeia, não o entendemos da mesma maneira. Esta distinção entre duas realidades, uma física e outra metafísica, uma dos objectos e uma outra dos valores, desvende uma lógica e um mecanismo onde a comunicação pode ter de facto uma função na modificação, ou até na criação dessa segunda realidade, cuja existência seria bastante difícil ou até mesmo impensável numa definição da realidade puramente física. É com estas noções que iremos abordar a comunicação no âmbito da realidade.
[1] "[…] on fait une confusion entre deux aspects différents de ce que nous appelons la réalité. Le premier a trait aux propriétés purement physique, objectivement sensibles des choses, et est intimement lié à une perception sensorielle correcte, au sens «commun» ou à une vérification objective, répétable et scientifique. Le second concerne l’attribution d’une signification et d’une valeur à ces chose, et il se fonde sur la communication." Paul Watzlawick, La réalité de la réalité. Confusion, désinformation, communication, Paris, Le Seuil, 1978, p. 137.
sábado, 24 de outubro de 2009
Foi em Fevereiro que a Rainha de Inglaterra desceu Portugal inteiro
Em 1957 a Rainha de Inglaterra parou em Portugal. Em 1957 o metro de Lisboa estava em construção. Quando esperamos o metro em Lisboa dirigimos a expectativa no lado direito da linha. Foram os ingleses que construíram o metro de Lisboa (os ingleses que eram já donos de Lisboa sem os lisboetas o saberem e sem o quererem saber). Haveria de ser engraçado o metro de Lisboa e o metro de Paris ambos na mesma linha, como um inglês em contra-mão no Boulevard Saint-Michel debaixo de uma noite intensa. O metro de Lisboa foi inaugurado em 1959. Para receber a Rainha de Inglaterra foi preciso tapar as obras na Avenida da Liberdade e replantar momentaneamente as árvores. Depois pintaram as folhas com uma tinta verde. Foi em Fevereiro que a Rainha de Inglaterra desceu Portugal inteiro. Ela deve ter achado curioso circular do lado errado da estrada.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Reencontros
Ao reencontrar uma velha amiga ontem na estação, desaparecida durante três anos da minha vida (ou eu desaparecido da sua), no breve e cínico instante do reencontro uma forte sensação de confrontação transcendeu o meu pensamento. Na minha viagem (que apenas agora começava) traduzi a sensação numa explicação: a confrontação, o meu presente e o meu passado, um no meu eu e o outro no seu, nos seus olhos uma memória do meu ser enquanto que eu, verdadeiramente, a soma daquela imagem com três anos de desaparecimento. O meu passado empestado nos seus olhos, inofensivo, preso na forma de uma memória, impotente frente ao espírito que o negou (e que continua a negá-lo), então rapidamente a imagem esmorece, a ideia morre transformando a confrontação numa incoerência. Como a minha velha amiga, é esta incoerência que diz: «estás diferente». O corpo intacto, completamente inalterado, como distinguir a diferença? Interessado no hipotético mecanismo da diferenciação metafísica pergunto-lhe porquê. Que poderia ter ela respondido? Que estou diferente «porque o teu presente tomou posse da imagem que eu tinha na memória.»? Eis porque a resposta se limita normalmente a uma especulação duvidosa. Mas muitas vezes é o contrário que acontece. A imagem do passado subordina o presente e a acção volta a encontrar um antigo fundamento, redefinindo momentaneamente o ser quando confrontado a um espectador do seu passado. A necessidade para manter a coerência é mais forte. Não se quer mostrar sinais de mudança, sinónimos de uma deterioração ou de um retrocesso ou até mesmo de uma traição ontológica. Tudo dependerá do valor atribuído aos momentos da nossa existência partilhados com os outros, os nossos espectadores.
A rapariga ruiva do café, se imortalizada na minha memória é talvez porque esta memória algures entre a confrontação e a coerência. A sua intemporalidade, que impossibilita qualquer relação com a minha existência, faz dela uma constante da minha realidade, ela, uma memória, a metamorfose instantânea de uma desconhecida num gesto infinito, numa inesgotável ideia estética do meu mundo.
A rapariga ruiva do café, se imortalizada na minha memória é talvez porque esta memória algures entre a confrontação e a coerência. A sua intemporalidade, que impossibilita qualquer relação com a minha existência, faz dela uma constante da minha realidade, ela, uma memória, a metamorfose instantânea de uma desconhecida num gesto infinito, numa inesgotável ideia estética do meu mundo.
sábado, 3 de outubro de 2009
A fonte inteligível das nossas impotências
Procuramos razões e explicações para as nossas escolhas. A ideia que elas possam surgir do nada é desconfortável e enganadora: desconfortável porque é admitir uma impotência sobre o nosso próprio ser e ao mesmo tempo negar a racionalidade que caracteriza (frequentemente) a nossa existência; enganadora porque ex nihilo nihil fit; do nada nada vem.
Ao procurarmos razões para as nossas escolhas alimentamos a ilusão do nosso controlo sobre nós mesmos e do nosso poder sobre o mundo. Acreditamos que ao entender a escolha alcançamos o nosso ser (talvez a alma, a mente, ambos ou nenhum). E se isso acontece é apenas porque existe uma pré-consideração (consciente ou inconsciente) no pensamento geral: a acção define o ser, ou simplificando na frase tantas vezes ouvida, “é aquilo que tu fazes que te define”.
É necessário esclarecer porque consideramos que a escolha e a acção podem ser legitimamente confundidas. As acções baseiam-se invariavelmente em escolhas. Uma acção involuntária é uma acção cuja escolha é ininteligível para o indivíduo.
Depois de Deus, a psicanálise é talvez a melhor invenção que o Homem produziu para alimentar a sua impotência. Mesmo quando o Homem perde o controlo, ele não deixa de saber porquê (ou porque Deus assim o quer ou porque, por exemplo, o superego está a ser reprimido por um poderoso inconsciente).
Existem então duas fontes diferentes para a justificação da impotência humana? Existem certamente muitas mais. Seja como for, Deus é talvez a única fonte universal para justificar qualquer impotência humana, ao contrário da psicanálise que apenas pode explicar uma impotência pessoal (porque é que não consigo aprender a nadar). Deus pode explicar esta mesma impotência pessoal (não consigo aprender a nadar simplesmente porque Deus assim o quer) e ao mesmo tempo explicar uma impotência extra-pessoal (porque é que não pude salvar a pessoa que estava a afogar-se; porque é que não pude prever que ia ter um acidente; porque é que não conseguimos salvar as pessoas que estavam presas na mina).
Mas de um ponto de vista racional, as impossibilidades são apenas factos (não conseguimos salvar as pessoas que estavam presas na mina porque não tínhamos meios técnicos para remover as pedras que bloqueavam o acesso) e não uma impotência humana com uma fonte pensável. Pensar que a impotência do Homem tem uma fonte é procurar uma causa, uma razão para essa impotência. Sem Deus, a impotência do Homem é uma mera impossibilidade. Sem Deus o Homem é impotente. Sem Deus o mundo não tem causa nem razão. Sem Deus o mundo é inexplicável. Mas sem Deus o mundo é verdadeiro. Ele é tal como o vemos: um mundo sem razão aparente.
Negar a impotência do Homem é alimentar a ilusão de um mundo melhor.
Se assim descobrimos a morte de Deus (como aconteceu e acontece desde o início das ciências, ou desde Nietzsche), o que acontece então à psicanálise? É ou não a psicanálise uma ciência? E a psicologia? Acreditar na psicologia não é acreditar numa natureza humana quantificável? Sim, acreditar na psicologia é acreditar numa natureza humana quantificável e relativamente uniforme. Mas esquecemos agora a psicologia (que mereceria uma bem grande discussão) para voltarmos brevemente à psicanálise. Enquanto que o Homem afasta-se cada vez mais de Deus (não me venham dizer que não), abraçando o terrível facto que as desgraças são simples factos desprovidos de uma razão ou fonte externa inteligível, o Homem continua obviamente obcecado por ele mesmo. Eis algumas actividades exclusivamente reservadas ao estudo do Homem e das suas criações: a psicologia; a psicanálise; a antropologia; a sociologia; a pedagogia; a neurologia; a economia; a história; o direito (a nova grande religião da humanidade “moderna”); a linguística; a sexologia; ect. A psicanálise e a psicologia transformaram-se, numa era agnóstica, nas únicas ciências capazes de explicar as impotências internas do Homem, sendo as externas um assunto completamente disparatado: por mais desagradável que é, um facto é apenas um facto.
Gostaria de perguntar um dia a um psicanalista se ele acredita em Deus. Não consigo aprender a nadar porque caí num poço quando era criança ou porque Deus assim o quer? Aparentemente não se pode acreditar ao mesmo tempo em Deus e na psicanálise.
(E se ele responder-me que foi Deus que me fez cair dentro do poço para eu não conseguir aprender a nadar? É provável que involuntariamente dar-lhe-ei uma chapada.)
Ao procurarmos razões para as nossas escolhas alimentamos a ilusão do nosso controlo sobre nós mesmos e do nosso poder sobre o mundo. Acreditamos que ao entender a escolha alcançamos o nosso ser (talvez a alma, a mente, ambos ou nenhum). E se isso acontece é apenas porque existe uma pré-consideração (consciente ou inconsciente) no pensamento geral: a acção define o ser, ou simplificando na frase tantas vezes ouvida, “é aquilo que tu fazes que te define”.
É necessário esclarecer porque consideramos que a escolha e a acção podem ser legitimamente confundidas. As acções baseiam-se invariavelmente em escolhas. Uma acção involuntária é uma acção cuja escolha é ininteligível para o indivíduo.
Depois de Deus, a psicanálise é talvez a melhor invenção que o Homem produziu para alimentar a sua impotência. Mesmo quando o Homem perde o controlo, ele não deixa de saber porquê (ou porque Deus assim o quer ou porque, por exemplo, o superego está a ser reprimido por um poderoso inconsciente).
Existem então duas fontes diferentes para a justificação da impotência humana? Existem certamente muitas mais. Seja como for, Deus é talvez a única fonte universal para justificar qualquer impotência humana, ao contrário da psicanálise que apenas pode explicar uma impotência pessoal (porque é que não consigo aprender a nadar). Deus pode explicar esta mesma impotência pessoal (não consigo aprender a nadar simplesmente porque Deus assim o quer) e ao mesmo tempo explicar uma impotência extra-pessoal (porque é que não pude salvar a pessoa que estava a afogar-se; porque é que não pude prever que ia ter um acidente; porque é que não conseguimos salvar as pessoas que estavam presas na mina).
Mas de um ponto de vista racional, as impossibilidades são apenas factos (não conseguimos salvar as pessoas que estavam presas na mina porque não tínhamos meios técnicos para remover as pedras que bloqueavam o acesso) e não uma impotência humana com uma fonte pensável. Pensar que a impotência do Homem tem uma fonte é procurar uma causa, uma razão para essa impotência. Sem Deus, a impotência do Homem é uma mera impossibilidade. Sem Deus o Homem é impotente. Sem Deus o mundo não tem causa nem razão. Sem Deus o mundo é inexplicável. Mas sem Deus o mundo é verdadeiro. Ele é tal como o vemos: um mundo sem razão aparente.
Negar a impotência do Homem é alimentar a ilusão de um mundo melhor.
Se assim descobrimos a morte de Deus (como aconteceu e acontece desde o início das ciências, ou desde Nietzsche), o que acontece então à psicanálise? É ou não a psicanálise uma ciência? E a psicologia? Acreditar na psicologia não é acreditar numa natureza humana quantificável? Sim, acreditar na psicologia é acreditar numa natureza humana quantificável e relativamente uniforme. Mas esquecemos agora a psicologia (que mereceria uma bem grande discussão) para voltarmos brevemente à psicanálise. Enquanto que o Homem afasta-se cada vez mais de Deus (não me venham dizer que não), abraçando o terrível facto que as desgraças são simples factos desprovidos de uma razão ou fonte externa inteligível, o Homem continua obviamente obcecado por ele mesmo. Eis algumas actividades exclusivamente reservadas ao estudo do Homem e das suas criações: a psicologia; a psicanálise; a antropologia; a sociologia; a pedagogia; a neurologia; a economia; a história; o direito (a nova grande religião da humanidade “moderna”); a linguística; a sexologia; ect. A psicanálise e a psicologia transformaram-se, numa era agnóstica, nas únicas ciências capazes de explicar as impotências internas do Homem, sendo as externas um assunto completamente disparatado: por mais desagradável que é, um facto é apenas um facto.
Gostaria de perguntar um dia a um psicanalista se ele acredita em Deus. Não consigo aprender a nadar porque caí num poço quando era criança ou porque Deus assim o quer? Aparentemente não se pode acreditar ao mesmo tempo em Deus e na psicanálise.
(E se ele responder-me que foi Deus que me fez cair dentro do poço para eu não conseguir aprender a nadar? É provável que involuntariamente dar-lhe-ei uma chapada.)
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