sábado, 31 de Outubro de 2009

A esmola

Apanhei o estranho hábito de ir lanchar qualquer coisa em frente da Notre Dame durante um intervalo entre duas aulas. Entro num desses pequenos supermercados baratos no Boulevard Saint-Michel para comprar um croissant. Antes de sair do supermercado faço sempre atenção para arrumar o croissant (ele arrumado dentro de uma embalagem de plástico) dentro da minha mala para poder dar uma moeda ao mendigo que está lá fora sentado no chão com escrito num pedaço de cartão «tenho fome». Parece-me sempre no momento que todo o dinheiro do mundo nunca conseguiria apagar esta horrível imagem de um homem a receber uma esmola de alguém com um croissant na mão enquanto que nas suas mãos esse «tenho fome» no pedaço de cartão. Pior ainda é quando alguém com um croissant passa em frente do mendigo e finge que não sabe ler o cartão. Ele finge porque a imagem do analfabetismo consegue ser mais lírica do que a não-imagem do ignorar.

Chegado em frente da Notre Dame afasto-me dos pombos para me sentar nos bancos de pedra que também fazem de canteiros para as flores. A imagem é sempre a mesma. Um mar de turistas concentrado no grande rochedo. (Os pombos umas gaivotas igualmente irritantes, eu o curioso que está em terra e que ao longe observa o estranho espectáculo da natureza.) Uma mulher pergunta-me se sei falar inglês. As lamentações escritas num postal, digo-lhe que não (mentira) e tiro duas moedas do bolso. Ao tirar a mão do bolso uma outra moeda cai no chão. A mulher apanha a moeda e pergunta-me com os olhos se pode ficar com ela. Digo-lhe em português que podia precisar da moeda para comer mais alguma coisa. (Não sei porquê, disse-lhe isso em português, como se o português fosse a língua dos mendigos talvez. Ela obviamente não percebeu o que eu queria dizer com aquelas palavras, mas em português ou em francês, ou até mesmo em inglês (mas o som do inglês naquele dia irritava-me não sei porquê) o gesto que se faz com a mão para dizer comer é o mesmo.) A verdade é que achei que os três euros seriam bem demais para apenas um mendigo. (Todos os dias, antes de sair de casa, tento sempre pôr uns trocos dentro do bolso das calças para poder dar facilmente uma moeda aos mendigos que valem a pena (pois nem todos ao meu ver merecem uma das minhas poucas moedas, não porque não merecem de todo, mas apenas porque há mendigos que merecem mais do que outros)). Dar três moedas àquela mulher teria sido injusto para todos os mendigos da cidade. Este acto teria manchado a imagem do meu dia com a resplandecente cor da injustiça.

Pouco depois uma mulher sobe em cima de uma placa de cimento alinhada com o meio da catedral. Ela veste uma túnica dourada com uma faixa vertical preta nas costas e logo depois esconde a cara com uma máscara egípcia de plástico. Em frente dos pés há um pequeno cesto onde as pessoas começam a deixar cair moedas. As crianças pedem trocos aos pais para os irem pôr dentro do pequeno cesto. Cada vez que alguém põe uma moeda a mulher faz uma vénia como um judoca antes do combate. As pessoas sobem em cima da placa de cimento para tirarem uma fotografia com a coisa egípcia e a catedral. Um pouco mais ao lado a mulher que me perguntou se sabia falar inglês procura na multidão mais um ganha-pão. Esta mulher tem uma túnica preta que lhe cobre a cabeça e o resto do corpo. Na sua cara nenhuma máscara, apenas os olhos cansados de procurar na multidão.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Piada sobre o tempo

Se o planeta girasse duas vezes mais devagar teríamos duas vezes mais tempo.

Foi em Fevereiro que a Rainha de Inglaterra desceu Portugal inteiro

Em 1957 a Rainha de Inglaterra parou em Portugal. Em 1957 o metro de Lisboa estava em construção. Quando esperamos o metro em Lisboa dirigimos a expectativa no lado direito da linha. Foram os ingleses que construíram o metro de Lisboa (os ingleses que eram já donos de Lisboa sem os lisboetas o saberem e sem o quererem saber). Haveria de ser engraçado o metro de Lisboa e o metro de Paris ambos na mesma linha, como um inglês em contra-mão no Boulevard Saint-Michel debaixo de uma noite intensa. O metro de Lisboa foi inaugurado em 1959. Para receber a Rainha de Inglaterra foi preciso tapar as obras do metro na Avenida da Liberdade (para quem passa por lá uma vez na vida Portugal inteiro) e replantar momentaneamente as árvores. Depois pintaram as folhas com uma tinta verde. Foi em Fevereiro que a Rainha de Inglaterra desceu Portugal inteiro. Ela deve ter achado curioso circular no seu veículo do lado errado da estrada.

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Reencontros

Ao reencontrar uma velha amiga ontem na estação, desaparecida durante três anos da minha vida (ou eu desaparecido da sua), no breve e cínico instante do reencontro uma forte sensação de confrontação transcendeu o meu pensamento. Na minha viagem (que apenas agora começava) traduzi a sensação numa explicação: a confrontação, o meu presente e o meu passado, um no meu eu e o outro no seu, nos seus olhos uma memória do meu ser enquanto que eu, verdadeiramente, a soma daquela imagem com três anos de desaparecimento. O meu passado empestado nos seus olhos, inofensivo, preso na forma de uma memória, impotente frente ao espírito que o negou (e que continua a negá-lo), então rapidamente a imagem esmorece, a ideia morre transformando a confrontação numa incoerência. Como a minha velha amiga, é esta incoerência que diz: «estás diferente». O corpo intacto, completamente inalterado, como distinguir a diferença? Interessado no hipotético mecanismo da diferenciação metafísica pergunto-lhe porquê. Que poderia ter ela respondido? Que estou diferente «porque o teu presente tomou posse da imagem que eu tinha na memória.»? Eis porque a resposta se limita normalmente a uma especulação duvidosa. Mas muitas vezes é o contrário que acontece. A imagem do passado subordina o presente e a acção volta a encontrar um antigo fundamento, redefinindo momentaneamente o ser quando confrontado a um espectador do seu passado. A necessidade para manter a coerência é mais forte. Não se quer mostrar sinais de mudança, sinónimos de uma deterioração ou de um retrocesso ou até mesmo de uma traição ontológica. Tudo dependerá do valor atribuído aos momentos da nossa existência partilhados com os outros, os nossos espectadores.

A rapariga ruiva do café, se imortalizada na minha memória é talvez porque esta memória algures entre a confrontação e a coerência. A sua intemporalidade, que impossibilita qualquer relação com a minha existência, faz dela uma constante da minha realidade, ela, uma memória, a metamorfose instantânea de uma desconhecida num gesto infinito, numa inesgotável ideia estética do meu mundo.

sábado, 3 de Outubro de 2009

A fonte inteligível das nossas impotências

Procuramos razões e explicações para as nossas escolhas. A ideia que elas possam surgir do nada é desconfortável e enganadora: desconfortável porque é admitir uma impotência sobre o nosso próprio ser e ao mesmo tempo negar a racionalidade que caracteriza (frequentemente) a nossa existência; enganadora porque ex nihilo nihil fit; do nada nada vem.

Ao procurarmos razões para as nossas escolhas alimentamos a ilusão do nosso controlo sobre nós mesmos e do nosso poder sobre o mundo. Acreditamos que ao entender a escolha alcançamos o nosso ser (talvez a alma, a mente, ambos ou nenhum). E se isso acontece é apenas porque existe uma pré-consideração (consciente ou inconsciente) no pensamento geral: a acção define o ser, ou simplificando na frase tantas vezes ouvida, “é aquilo que tu fazes que te define”.

É necessário esclarecer porque consideramos que a escolha e a acção podem ser legitimamente confundidas. As acções baseiam-se invariavelmente em escolhas. Uma acção involuntária é uma acção cuja escolha é ininteligível para o indivíduo.

Depois de Deus, a psicanálise é talvez a melhor invenção que o Homem produziu para alimentar a sua impotência. Mesmo quando o Homem perde o controlo, ele não deixa de saber porquê (ou porque Deus assim o quer ou porque, por exemplo, o superego está a ser reprimido por um poderoso inconsciente).

Existem então duas fontes diferentes para a justificação da impotência humana? Existem certamente muitas mais. Seja como for, Deus é talvez a única fonte universal para justificar qualquer impotência humana, ao contrário da psicanálise que apenas pode explicar uma impotência pessoal (porque é que não consigo aprender a nadar). Deus pode explicar esta mesma impotência pessoal (não consigo aprender a nadar simplesmente porque Deus assim o quer) e ao mesmo tempo explicar uma impotência extra-pessoal (porque é que não pude salvar a pessoa que estava a afogar-se; porque é que não pude prever que ia ter um acidente; porque é que não conseguimos salvar as pessoas que estavam presas na mina).

Mas de um ponto de vista racional, as impossibilidades são apenas factos (não conseguimos salvar as pessoas que estavam presas na mina porque não tínhamos meios técnicos para remover as pedras que bloqueavam o acesso) e não uma impotência humana com uma fonte pensável. Pensar que a impotência do Homem tem uma fonte é procurar uma causa, uma razão para essa impotência. Sem Deus, a impotência do Homem é uma mera impossibilidade. Sem Deus o Homem é impotente. Sem Deus o mundo não tem causa nem razão. Sem Deus o mundo é inexplicável. Mas sem Deus o mundo é verdadeiro. Ele é tal como o vemos: um mundo sem razão aparente.

Negar a impotência do Homem é alimentar a ilusão de um mundo melhor.

Se assim descobrimos a morte de Deus (como aconteceu e acontece desde o início das ciências, ou desde Nietzsche), o que acontece então à psicanálise? É ou não a psicanálise uma ciência? E a psicologia? Acreditar na psicologia não é acreditar numa natureza humana quantificável? Sim, acreditar na psicologia é acreditar numa natureza humana quantificável e relativamente uniforme. Mas esquecemos agora a psicologia (que mereceria uma bem grande discussão) para voltarmos brevemente à psicanálise. Enquanto que o Homem afasta-se cada vez mais de Deus (não me venham dizer que não), abraçando o terrível facto que as desgraças são simples factos desprovidos de uma razão ou fonte externa inteligível, o Homem continua obviamente obcecado por ele mesmo. Eis algumas actividades exclusivamente reservadas ao estudo do Homem e das suas criações: a psicologia; a psicanálise; a antropologia; a sociologia; a pedagogia; a neurologia; a economia; a história; o direito (a nova grande religião da humanidade “moderna”); a linguística; a sexologia; ect. A psicanálise e a psicologia transformaram-se, numa era agnóstica, nas únicas ciências capazes de explicar as impotências internas do Homem, sendo as externas um assunto completamente disparatado: por mais desagradável que é, um facto é apenas um facto.

Gostaria de perguntar um dia a um psicanalista se ele acredita em Deus. Não consigo aprender a nadar porque caí num poço quando era criança ou porque Deus assim o quer? Aparentemente não se pode acreditar ao mesmo tempo em Deus e na psicanálise.


(E se ele responder-me que foi Deus que me fez cair dentro do poço para eu não conseguir aprender a nadar? É provável que involuntariamente dar-lhe-ei uma chapada.)

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

A bengala

Um idoso está sentado numa cadeira de rodas. O médico acaba de lhe informar sobre a improbabilidade da sua recuperação. O idoso, pensativo, segura nas suas mãos uma bengala. Atrás dele o filho empurra a cadeira num passeio silencioso. Metros depois o filho pergunta ao pai:

– Onde é que encontraste essa bengala?

– Comprei-a a uma mulher que também vendia chapéus-de-chuva.

– Deverias ter comprado um chapéu-de-chuva.

– Eu sei. As bengalas são para os coxos. E eu nem coxo sou…

– Não era o que queria dizer…

– Era exactamente o querias dizer. E o que mais te chateia é que vais ter de aturar este nem-coxo talvez até o resto da sua vida. Mas ambos sabemos que não é isso que vai acontecer porque mais uma vez vais desaparecer para talvez reaparecer nos natais ou numa outra desculpa que o ano tem para os reencontros fugazes. O que te chateia realmente é a quantidade desconfortável de dinheiro que vou gastar mensalmente com o nem-coxo que agora sou em fisioterapia, cadeiras de rodas, elevadores, rampas antiderrapantes, ajuda domiciliária e outras necessidades do meu dia-a-dia como nem-coxo. Mas o que te chateia realmente é que este acidente não acabou comigo. E se esta bengala irrita-te profundamente é porque ela representa a minha esperança e a minha teimosia em permanecer!

Furioso, o filho abandona o pai no meio do parque

– Um dia quando estiveres à beira da morte vais te lembrar de todas as vezes que precisaste de mim seu filho da puta!

Aos risos o pai grita-lhe ao longe

– A desgraça de não ter aquilo que se pode vir a precisar é muito maior do que a desgraça de não ter tido aquilo que se poderia ter tido. Quem me dera ter tido um preservativo na noite em que estive com a tua mãe! Mas aprendi com o meu erro. Nunca se sabe quando é que voltarei a andar! É por isso que comprei uma bengala seu cabrão!

domingo, 27 de Setembro de 2009

Memórias de guerra (1944-1945), IV

Perto do final da segunda guerra mundial os russos fizeram desfilar em Moscovo cem mil soldados alemães capturados. Esfomeados propositadamente nos campos prisionais, os alemães apenas tiverem direito antes do desfile a uma sopa com grande propriedade laxativa. Atrás do humilhante desfile havia camiões cisternas para limpar a merda do chão.