Gulliver

Numa adaptação televisiva das suas viagens (adaptação de 1996), Gulliver, ao voltar a Inglaterra, ao voltar para a sua realidade, enlouquecido pelas viagens, lunático, demente, conta ter estado em terra de anões e gigantes, visto uma ilha flutuante e conhecido cavalos inteligentes com os quais bastante conversou. (Se indico, bem no início do parágrafo, que se trata de uma adaptação televisiva, não é para dizer, obviamente, que os anões, os gigantes, a ilha flutuante e os cavalos inteligentes não fazem parte do romance de Jonathan Swift, mas que na versão original, ao voltar a Inglaterra depois de uma escala em Lisboa, Gulliver não é considerado louco e muito menos lhe é necessário provar as suas histórias para não ser internado num manicómio.) Geralmente considerado como um romance satírico, As viagens de Gulliver pode muito bem ser visto como um romance ontológico que quer responder a seguinte pergunta: a realidade define aquilo que somos?

Como transformar um romance dito satírico num romance ontológico? Transformar? Isso sequer faz algum sentido? E há alguma necessidade? Eis a beleza deste romance: com o tempo (ou seja com o esquecimento), ele responde duas vezes à sua pergunta:

1) Nada mais desapropriado do que perguntar ao Gulliver depois das suas viagens e da sua ilibação (na adaptação televisiva) se a realidade define aquilo que somos. Se eu tivesse o privilégio de ter feito estas viagens e a cómica oportunidade para responder a esta pergunta, com o merecido sarcasmo responderia que

– Tudo depende do seu ponto de vista…

Gigante na primeira ilha, criatura minúscula na segunda, intelectualmente inferior na companhia dos cavalos inteligentes e depois considerado louco na sua própria realidade (ponto importante ao qual já voltaremos), como continuar a negar que a realidade não tem um grande poder na determinação do nosso ser (seja o que isso for) e que este lhe é, por consequente, directamente relacionado? Muitos podem agora dizer que um erro crucial está a ser cometido: gigante? criatura minúscula? intelectualmente inferior? não é o contrário? não são os habitantes destas ilhas que são minúsculos, gigantes e os cavalos intelectualmente superiores? Sim. Mas, nada mais relativo do que uma realidade: construídas pela visão do mundo alcançável à mente e ao olhar, nelas a maior quantidade transforma-se irremediavelmente na normalidade. O choque entre duas normalidades diferentes tem de ser entendido pela relatividade das suas construções. Não se trata de um erro, bem pelo contrário, trata-se de uma confirmação.

2) Escrito em 1721 (publicado com modificações e censuras do editor em 1726 e na integra em 1735), As viagens de Gulliver é, sem qualquer dúvida, para a sua época, um romance satírico. Se ele não fosse, porque se dar o trabalho de o modificar e censurar? É inegável: crítica da sociedade inglesa (comparando-a à sociedade dos lilliputianos, os pequenos habitantes de Lilliput); crítica das guerras entre a Inglaterra e a França (com a guerra entre Lilliput e Blefuscu originada pela discórdia entre a forma de se partir um ovo à la coque); crítica da filosofia, da especulação e dos cientistas (com o episódio da ilha voadora); etc. e etc. Passados quase 300 anos da sua publicação, lido três séculos depois, o que resta da sátira deste romance? Com conhecimento de causa e com bastante esforço pode ser possível, ainda hoje, relacionar e construir metáforas entre o que Gulliver presenciou nas suas viagens e as nossas realidades. Mas se desconhecermos o passado desta obra, o seu contexto social de origem e a dimensão histórica em que foi escrita, como ver nestas viagens mais do que uma moralidade ou, como se está aqui a defender, uma inquirição ontológica? Se as viagens de Gulliver através as diferentes ilhas mostram que a realidade tem um grande impacto na definição do que somos, a viagem desta obra através o tempo faz exactamente o mesmo realçando o poder do envolvente sobre o envolvido e respondendo uma segunda vez à sua própria pergunta.

O regresso a Inglaterra (continuando na adaptação televisiva) transforma-se para Gulliver na última etapa do seu périplo, na confrontação final entre uma realidade e o seu desconhecido, entre um homem são e um homem louco. Contadas as suas viagens, elas não passam dos delírios de um náufrago.

O que reivindica Gulliver? Um inexistente ou um desconhecido? Para quem o ouve, nada indica nos seus relatos a possibilidade de existência necessária para a criação de um desconhecido. O desconhecido é um acto que subentende a não inexistência do que se determina como não fazendo parte da nossa realidade. Este acto, uma tomada de posição, uma afirmação, subentende o conhecimento, intuitivo ou explícito, da noção de realidade (a visão do mundo criada por aquilo que alcançamos dele fisicamente e intelectualmente) para transformar o que é para a realidade inexistente no que é apenas desconhecido. Esta transformação pode ocorrer de diferentes maneiras: grande parte das vezes com a apresentação de uma prova (matemática, lógica, física, etc.); outras vezes graças a um mecanismo incerto: a fé.
Nesta adaptação televisiva, é apenas quando uma ovelha minúscula da ilha de Lilliput é apresentada ao público do tribunal encarregue da avaliação psicológica de Gulliver que o inexistente se transforma em desconhecido e que o louco se transforma no homem que sobreviveu a uma viagem extraordinária no desconhecido da realidade.

A transformação da realidade pela comunicação: 5. A comunicação – uma modificação da realidade

Como vimos anteriormente, a comunicação provoca automaticamente uma perda na realidade metafísica aquando da sua transmissão. Até mesmo as imagens, na televisão ou na fotografia, são incapazes de transmitir todas as dimensões de uma realidade física ou metafísica. A televisão mostra apenas o que quer: as pessoas que fazem a televisão (os produtores, os directores, os técnicos, etc.) escolhem e mostram o que querem mostrar. Por exemplo, durante um fogo-de-artifício as câmaras de televisão estão viradas para o céu, concentradas nas explosões multicolores. O telespectador não tem escolha, ele vai ver e conhecer apenas aquilo que a televisão vai lhe mostrar. O espectador presente no local vai poder observar o público, os arredores, as partes do céu onde não há fogo-de-artifício tendo assim um conhecimento e uma experiência diferente, muito mais global do evento. Tendo eles acessos diferentes à realidade, o telespectador poderá achar o fogo-de-artifício espectacular enquanto que o espectador o acha bastante monótono.

A transformação da realidade pela comunicação: 4. O jornalismo – uma modificação da realidade

Ao escreve sobre um determinado assunto ou determinada situação, o jornalista nunca traduz, ou transmite, a realidade metafísica exactamente tal como ela é. É uma tarefa impossível de realizar: pois se o dito assunto ou a dita situação, por exemplo, envolve uma multidão, existirão múltiplas realidades. O jornalista cria uma nova realidade para explicar o que está em causa: devido a natureza complexa da sua profissão, podemos dizer que é uma realidade baseada em fundamentos jornalísticos, a realidade de um jornalista. A transformação de um simples facto numa informação provoca automaticamente uma modificação nos valores que ela tinha inicialmente. Por exemplo, quando um jornalista comunica ao seus leitores que uma fábrica acaba de fechar as portas, apesar do artigo ser acompanhado por uma fotografia onde se pode ver os trabalhadores a manifestarem-se em frente da fábrica, ele nunca conseguirá transmitir com um pequeno texto formatado e limitado pelo espaço disponível no jornal todas as informações da situação e tudo aquilo que se pode saber ou sentir se fossemos um dos trabalhadores que acaba de perder o seu emprego. Uma parte da informação é comunicada mas não a realidade de cada pessoa presente.

A transformação da realidade pela comunicação: 3. O jornalismo – uma comunicação da realidade

O jornalismo comunica os dois tipos de realidade que até agora invocamos: ele nos mostra o mundo e ao mesmo tempo diz o que ele é e aquilo que significa ou representa. O jornalismo televisivo quer constantemente mostrar a realidade e provar que aquilo que mostra é bem real: “O importante é a ligação e o seu “efeito do real”: quem fala está presente no local, eis o “efeito do real”; é uma “verdadeira” testemunha e isso basta. Este sistema leva o verdadeiro jornalismo de investigação à ruína, pois uma “testemunha” […] transforma-se, na ideologia do directo, um valor absoluto, coisa também exigida a todos os jornalistas.”[3]. As imagens vêm ao mesmo tempo acompanhadas de comentários que explicam o que elas estão a mostrar. As testemunhas são entrevistadas para que elas possam exprimir as suas realidades físicas e metafísicas. O telespectador descobre assim uma realidade previamente apresentada e definida com determinados valores e representações. O telespectador limita-se a acreditar ou a não acreditar no comunicador.


[3] "L’important, c’est le branchement et sont «effet de réel» : celui qui parle est sur place, cela est une garantie d’authenticité, voilà l’«effet de réel» ; c’est un «vrai» témoin et cela suffit. Ce système signe la ruine du véritable journalisme d’enquête puisqu’un «témoin» […] devient, dans l’idéologie du direct, une valeur absolue, et que l’on exige de tout journaliste qu’il le devienne." Ignacio Ramonet, La tyrannie de la communication, Paris, Galilée (Folio actuel), 1999, p. 59.

A transformação da realidade pela comunicação: 2. A comunicação e a realidade

Constatamos que a comunicação está na base da construção dos valores que atribuímos à realidade física. Esta comunicação, esta troca de informação sobre o meio que nos envolve, esta interacção constrói em cada um de nós uma realidade, uma visão do mundo. Construímos uma realidade comunicando-a.

Parece existir entre as diferentes formas de comunicação uma forma cujas as propriedades são mais propícias para comunicar a realidade: a comunicação por via da imagem: “Como afirmam os especialistas em comunicação: a imagem, quando é forte, oblitera o som e o olho vence sobre o ouvido. Algumas imagens são hoje muito vigiadas, ou, para ser mais concreto, algumas realidades são estritamente proibidas à imagem, sendo este o melhor meio para as ocultar. Não há imagens, não há realidade.”[2]. É importante perceber isso: antes da existência de uma comunicação que nos vai permitir de construir a nossa própria realidade, a nossa visão do mundo, existe uma comunicação do mundo, uma comunicação da realidade física.

Se cada pessoa tem um acesso único ao mundo, então todas as pessoas têm uma visão única do mundo. O problema desta afirmação reside na existência dos médias de informação que generalizam o acesso à realidade. Utilizaremos um exemplo para explicar esta situação: quando vemos na televisão um sítio que não conhecemos e onde nunca estivemos, tomamos naquele instante conhecimento da existência de uma pequena realidade física. Associamos depois a esta nova realidade física determinados valores, ou seja considerações, significações, criamos a nossa realidade sobre este pequeno pedaço do mundo que acabamos de entrever no nosso pequeno ecrã. Ao mesmo tempo muito outros telespectadores vão também tomar conhecimento deste sítio e criar considerações. Existe uma tendência, causada pela existência dos médias, para uma universalização do conhecimento do real. Se de um lado isto permite aumentar o nosso conhecimento da realidade física do mundo, esta comunicação generalizada da realidade, associada a certas patologias da comunicação, pode ser do outro lado um instrumento para uma banalização e uniformização global da realidade metafísica.

A comunicação generalizada da realidade através dos médias e do jornalismo é o tema do próximo ponto.


[2] "Comme l’affirment les experts en communication : l’image quand elle est forte, oblitère le son et l’œil l’emporte sur l’oreille. Certaines images sont désormais sous très haute surveillance, ou, pour être plus précis, certaines réalités sont strictement interdites d’images, ce qui est le moyen le plus efficace de les occulter. Pas d’image, pas de réalité." Ignacio Ramonet, La tyrannie de la communication, Paris, Galilée (Folio actuel), 1999, p. 46.

A transformação da realidade pela comunicação: 1. A realidade

A comunicação interfere na realidade? Pode ela a modificar? De que tipo de comunicação estamos nós a falar e como definir ou circunscrever a realidade (ou o real) potencialmente modificado? Que interacção existe entre os dois conceitos?

Antes de tentarmos saber se a comunicação tem o poder de modificar a realidade, é necessário compreender e definir o que chamamos a realidade ou o real. A realidade é geralmente reconhecida como todo o universo físico que podemos conhecer através dos vários sentidos do nosso corpo. A realidade é então um simples espaço que observamos. Eis agora uma outra perspectiva sobre o conceito da realidade que nos será de uma grande utilidade para compreender como a comunicação a pode modificar: “ […] fazemos uma confusão entre dois aspectos diferentes daquilo que chamamos a realidade. O primeiro faz referência às propriedades puramente físicas, objectivamente sensíveis das coisas, e é intimamente ligada a uma percepção sensorial correcta, num sentido “comum”, ou a uma verificação objectiva, repetível e científica. O segundo refere-se à atribuição de um significado e de um valor a essas coisas, e fundamenta-se sobre a comunicação.”[1]. Apesar de podermos observar com os mesmos meios o mundo que nos rodeia, não o entendemos da mesma maneira. Esta distinção entre duas realidades, uma física e outra metafísica, uma dos objectos e uma outra dos valores, desvende uma lógica e um mecanismo onde a comunicação pode ter de facto uma função na modificação, ou até na criação dessa segunda realidade, cuja existência seria bastante difícil ou até mesmo impensável numa definição da realidade puramente física. É com estas noções que iremos abordar a comunicação no âmbito da realidade.


[1] "[…] on fait une confusion entre deux aspects différents de ce que nous appelons la réalité. Le premier a trait aux propriétés purement physique, objectivement sensibles des choses, et est intimement lié à une perception sensorielle correcte, au sens «commun» ou à une vérification objective, répétable et scientifique. Le second concerne l’attribution d’une signification et d’une valeur à ces chose, et il se fonde sur la communication." Paul Watzlawick, La réalité de la réalité. Confusion, désinformation, communication, Paris, Le Seuil, 1978, p. 137.

Foi em Fevereiro que a Rainha de Inglaterra desceu Portugal inteiro

Em 1957 a Rainha de Inglaterra parou em Portugal. Em 1957 o metro de Lisboa estava em construção. Quando esperamos o metro em Lisboa dirigimos a expectativa no lado direito da linha. Foram os ingleses que construíram o metro de Lisboa (os ingleses que eram já donos de Lisboa sem os lisboetas o saberem e sem o quererem saber). Haveria de ser engraçado o metro de Lisboa e o metro de Paris ambos na mesma linha, como um inglês em contra-mão no Boulevard Saint-Michel debaixo de uma noite intensa. O metro de Lisboa foi inaugurado em 1959. Para receber a Rainha de Inglaterra foi preciso tapar as obras na Avenida da Liberdade e replantar momentaneamente as árvores. Depois pintaram as folhas com uma tinta verde. Foi em Fevereiro que a Rainha de Inglaterra desceu Portugal inteiro. Ela deve ter achado curioso circular do lado errado da estrada.