Apanhei o estranho hábito de ir lanchar qualquer coisa em frente da Notre Dame durante um intervalo entre duas aulas. Entro num desses pequenos supermercados baratos no Boulevard Saint-Michel para comprar um croissant. Antes de sair do supermercado faço sempre atenção para arrumar o croissant (ele arrumado dentro de uma embalagem de plástico) dentro da minha mala para poder dar uma moeda ao mendigo que está lá fora sentado no chão com escrito num pedaço de cartão «tenho fome». Parece-me sempre no momento que todo o dinheiro do mundo nunca conseguiria apagar esta horrível imagem de um homem a receber uma esmola de alguém com um croissant na mão enquanto que nas suas mãos esse «tenho fome» no pedaço de cartão. Pior ainda é quando alguém com um croissant passa em frente do mendigo e finge que não sabe ler o cartão. Ele finge porque a imagem do analfabetismo consegue ser mais lírica do que a não-imagem do ignorar.
Chegado em frente da Notre Dame afasto-me dos pombos para me sentar nos bancos de pedra que também fazem de canteiros para as flores. A imagem é sempre a mesma. Um mar de turistas concentrado no grande rochedo. (Os pombos umas gaivotas igualmente irritantes, eu o curioso que está em terra e que ao longe observa o estranho espectáculo da natureza.) Uma mulher pergunta-me se sei falar inglês. As lamentações escritas num postal, digo-lhe que não (mentira) e tiro duas moedas do bolso. Ao tirar a mão do bolso uma outra moeda cai no chão. A mulher apanha a moeda e pergunta-me com os olhos se pode ficar com ela. Digo-lhe em português que podia precisar da moeda para comer mais alguma coisa. (Não sei porquê, disse-lhe isso em português, como se o português fosse a língua dos mendigos talvez. Ela obviamente não percebeu o que eu queria dizer com aquelas palavras, mas em português ou em francês, ou até mesmo em inglês (mas o som do inglês naquele dia irritava-me não sei porquê) o gesto que se faz com a mão para dizer comer é o mesmo.) A verdade é que achei que os três euros seriam bem demais para apenas um mendigo. (Todos os dias, antes de sair de casa, tento sempre pôr uns trocos dentro do bolso das calças para poder dar facilmente uma moeda aos mendigos que valem a pena (pois nem todos ao meu ver merecem uma das minhas poucas moedas, não porque não merecem de todo, mas apenas porque há mendigos que merecem mais do que outros)). Dar três moedas àquela mulher teria sido injusto para todos os mendigos da cidade. Este acto teria manchado a imagem do meu dia com a resplandecente cor da injustiça.
Pouco depois uma mulher sobe em cima de uma placa de cimento alinhada com o meio da catedral. Ela veste uma túnica dourada com uma faixa vertical preta nas costas e logo depois esconde a cara com uma máscara egípcia de plástico. Em frente dos pés há um pequeno cesto onde as pessoas começam a deixar cair moedas. As crianças pedem trocos aos pais para os irem pôr dentro do pequeno cesto. Cada vez que alguém põe uma moeda a mulher faz uma vénia como um judoca antes do combate. As pessoas sobem em cima da placa de cimento para tirarem uma fotografia com a coisa egípcia e a catedral. Um pouco mais ao lado a mulher que me perguntou se sabia falar inglês procura na multidão mais um ganha-pão. Esta mulher tem uma túnica preta que lhe cobre a cabeça e o resto do corpo. Na sua cara nenhuma máscara, apenas os olhos cansados de procurar na multidão.
Chegado em frente da Notre Dame afasto-me dos pombos para me sentar nos bancos de pedra que também fazem de canteiros para as flores. A imagem é sempre a mesma. Um mar de turistas concentrado no grande rochedo. (Os pombos umas gaivotas igualmente irritantes, eu o curioso que está em terra e que ao longe observa o estranho espectáculo da natureza.) Uma mulher pergunta-me se sei falar inglês. As lamentações escritas num postal, digo-lhe que não (mentira) e tiro duas moedas do bolso. Ao tirar a mão do bolso uma outra moeda cai no chão. A mulher apanha a moeda e pergunta-me com os olhos se pode ficar com ela. Digo-lhe em português que podia precisar da moeda para comer mais alguma coisa. (Não sei porquê, disse-lhe isso em português, como se o português fosse a língua dos mendigos talvez. Ela obviamente não percebeu o que eu queria dizer com aquelas palavras, mas em português ou em francês, ou até mesmo em inglês (mas o som do inglês naquele dia irritava-me não sei porquê) o gesto que se faz com a mão para dizer comer é o mesmo.) A verdade é que achei que os três euros seriam bem demais para apenas um mendigo. (Todos os dias, antes de sair de casa, tento sempre pôr uns trocos dentro do bolso das calças para poder dar facilmente uma moeda aos mendigos que valem a pena (pois nem todos ao meu ver merecem uma das minhas poucas moedas, não porque não merecem de todo, mas apenas porque há mendigos que merecem mais do que outros)). Dar três moedas àquela mulher teria sido injusto para todos os mendigos da cidade. Este acto teria manchado a imagem do meu dia com a resplandecente cor da injustiça.
Pouco depois uma mulher sobe em cima de uma placa de cimento alinhada com o meio da catedral. Ela veste uma túnica dourada com uma faixa vertical preta nas costas e logo depois esconde a cara com uma máscara egípcia de plástico. Em frente dos pés há um pequeno cesto onde as pessoas começam a deixar cair moedas. As crianças pedem trocos aos pais para os irem pôr dentro do pequeno cesto. Cada vez que alguém põe uma moeda a mulher faz uma vénia como um judoca antes do combate. As pessoas sobem em cima da placa de cimento para tirarem uma fotografia com a coisa egípcia e a catedral. Um pouco mais ao lado a mulher que me perguntou se sabia falar inglês procura na multidão mais um ganha-pão. Esta mulher tem uma túnica preta que lhe cobre a cabeça e o resto do corpo. Na sua cara nenhuma máscara, apenas os olhos cansados de procurar na multidão.