sábado, 22 de agosto de 2009

Metamorfoses do género: I - Porque não foi Hildegarda para a fogueira?

Era comum, na idade média, queimar-se bruxas em fogueiras públicas. Estranhamente, a bruxaria parece ter sido naquele tempo uma actividade apenas praticada por mulheres.

Hildegarda de Bingen, no século XII, afirmava receber visões de Deus [1], e dedicava-se a actividades que eram muito raramente permitidas a mulheres, como por exemplo a medicina e a teologia. É importante notar que Hildegarda vivia numa sociedade maioritariamente controlada pela Igreja, uma sociedade obviamente controlada por homens. A questão impõem-se: porque não foi Hildegarda para a fogueira? A teoria que vamos defender é que Hildegarda nunca chegou a ser, na sua sociedade, uma mulher.

Ao explicarmos como eram justificadas e permitidas estas fogueiras, explicaremos ao mesmo tempo porque Hildegarda não acabou numas delas. A pergunta que devemos fazer é: quem é que era queimado vivo? Uma mulheres ou uma bruxa? É certo que se tratavam de bruxas. Este tremendo esmagamento ontológico por parte da sociedade justificava as suas acções. Na verdade, é o sujeito que define a fogueira: se uma acto de justiça ou de barbárie. Este esmagamento ontológico pode ser observado ainda hoje em muitas ocasiões: na guerra, com o esmagamento do Homem pelo inimigo; nos tribunais, com o esmagamento do suspeito pelo culpado; ect.

Hildegarda conseguiu libertar-se do estatuto de mulher, escapando ao esmagamento ontológico que muitas outras sofreram: Hildegarda era vista como veículo de transmissão divina. Além disso, é sabido que era também misógina, o que vem reforçar a tese que se libertou propositadamente do feminino. Enquanto mulher, teria tido grandes dificuldades em fazer aceitar as suas actividades à sociedade. Hildegarda criou o seu próprio esmagamento ontológico. A mulher foi esmagada por um ser que recebia visões de Deus.

Simone de Beauvoir trata do carácter místico que as mulheres se podem adquirir: “S’il suffit souvent d’un peu de beauté e d’intelligence pour que la femme se sente revêtue d’un caractère sacré, à plus forte raison quand elle se sait l’élue de Dieu, elle se pense chargée de mission : elle prêche des doctrines incertaines, elle fonde volontiers des sectes, ce qui lui permet d’opérer, à travers les membres de la collectivité qu’elle inspire, une enivrante multiplication de sa personnalité.” [2]. E certamente como foi o caso para Hildegarda, é esta mistificação que a vai projectar, enquanto acção positiva, na sociedade. [3]

Se Hildegarda não recebeu verdadeiramente visões divinas, isto significa que terá propositadamente e engenhosamente modificado, ao olhos da socidade, a sua identidade.


[1] Cf. Scivias «Sache les voies» ou Livre des visions, 2ª ed., prés. et trad. par Pierre Monat, Paris, Cerf, 1996, p.27.
[2] Simone de Beauvoir, Le deuximème sexe, 2º vol., Gallimard, 1949, p.592.
[3] Cf. Idem, p. 593.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Memórias de guerra (1944-1945), III

O inimigo chegou na manhã de domingo pouco antes do início da missa. Grande parte dos soldados estavam feridos, cansados e esfomeados, desarmados, nos olhos o olhar de uma alma a sustentar um corpo apenas por misericórdia, a arrogância de uma convicção algures desaparecida, a convicção há seis meses atrás dentro da própria alma, nas pernas e nos braços, nos ombros que carregados de belas espingardas, o objecto imagem de uma força esmagadora, há seis meses atrás um festival, um desfile militar, hoje uma procissão fúnebre, uma subida ao calvário, se houvesse mortos um funeral, mas esses ficaram lá atrás enquanto que os vivos fugiam da mesma sorte. A aldeia e o inimigo entraram juntos na igreja. Uns rezaram para o fim da guerra, outros rezaram para o regresso da paz. Quando a missa terminou, as tropas que perseguiam o inimigo já se encontravam na praça da igreja. Dois inimigos foram capturados. Todos os outros foram metralhados num dos cantos da praça. O inimigo poderia ter escapado.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sobre o sobreviver

Se sobreviveres a uma chuva de obuses, abriga-te numa das crateras; eles nunca caem no mesmo sítio. Se sobreviveres à batalha, afasta-te dos cadáveres; a morte traz a doença. E se sobreviveres à guerra, refugia-te no Homem; ele conseguirá a paz. Se tiveres a sorte de sobreviver a estes mundos, terás de descobrir finalmente como sobreviver ao Homem, e como sobreviver à paz.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A experiência da Imperatriz

Quando um dia a Imperatriz da nossa grande nação decidiu depois de um sonho atribulado fazer organizar uma experiência, ninguém, nem mesmo os conselheiros mais próximos, puderam entender, depois da cuidadosa descrição do despacho imperial, qual poderia ser a razão de tal desejo. Eis as suas palavras: «Que seja escolhido entre os muitos órfãos da nossa nação um criança saudável com poucos dias de vida. Que seja esta criança levada para o palácio imperial, onde terá o direito a uma boa alimentação e a uma educação. Que seja à esta criança, todos os dias sem excepção, simulada a execução de um inocente. A criança não deverá saber que se trata de uma falsa execução. As simulações deverão ser mantidas em segredo.» E assim foi.

Quando a criança, agora adulta, completou os dezanove anos de idade, uma festa foi organizada no jardim do palácio. Para a ocasião mais de mil pessoas foram convidadas. No final do evento, uma execução foi organizada. Apesar das execuções serem consideradas bárbaras e inumanas, ninguém ousara levantar objecções. O jovem aniversariante foi instalado numa cadeira elevada por um pequeno pedestal de onde teria uma vista privilegiada para o evento, e de onde ele próprio seria também facilmente observado por todos os presentes. Terminada a execução, o público, horrorizado pelo terrível espectáculo, descobre ao mesmo tempo, sentado no cimo da sua cadeira, um jovem rapaz completamente indiferente a comer delicadamente o seu bolo de aniversário. Subitamente, por completo espanto de todos os presentes, o executado, supostamente atravessado por dezenas de balas, levanta-se sorrindo para o público. A multidão pensa então perceber ter-se tratado do habitual sarcástico humor negro da magnífica Imperatriz. Ao contrário de todos os outros, o aniversariante fica absolutamente espantado. A Imperatriz observa do cimo da sua varanda as reacção do jovem rapaz. Virando-se para os seus conselheiro, finalmente diz: «Senhores, o nosso povo é bom, justo e inteligente. É nas suas crianças que a barbárie, a injustiça e a estupidez potencialmente residem.» Pouco tempo depois, o jovem rapaz desapareceu.

sábado, 11 de abril de 2009

Ilusões

A finitude física do mundo confunde-se comicamente com a ilusão da sua eternidade no tempo. É óbvio que não poderemos eternamente existir na ilusão do infinito.

sábado, 28 de março de 2009

A possiblidade do utilitarismo em Aristóteles

A pergunta é simples: podemos encontrar em Aristóteles uma ideia utilitarista de bem? Sendo o termo ambíguo e cronologicamente deslocado em relação ao nosso autor, vamos em primeiro lugar introduzir ao nosso estudo o que queremos entender com utilitarismo: baseamo-nos numa concepção de utilitarismo em que o seu objectivo é garantir o maior bem do maior número possível de indivíduos. [1]

“A cidade é por natureza anterior à família e a cada um de nós, individualmente considerado; é que o todo é, necessariamente, anterior à parte” [2]. Nesta passagem, Aristóteles coloca a importância da cidade sobre a do indivíduo. À primeira vista, poderíamos imediatamente afirmar que aqui se encontra uma prova que o bem de muitos é preferível ao bem de poucos. Mas devemos perguntar em primeiro lugar se podemos igualar a cidade com a designação o maior número de indivíduos. Aristóteles complica a questão na segunda parte da citação. É que apesar de o todo ser necessariamente anterior à parte, não continua a parte a formar o todo? Não continua essa parte a ser essencial ao todo? Até que ponto se sustenta autonomamente a importância do todo? Mas Aristóteles continua: “Même si, en effet, il y a identité entre le bien de l’individu et celui de la cité, de toute façon c’est une tâche manifestement plus importante et plus parfaite d’appréhender et de sauvegarder le bien de la cité” [3]. É difícil agora negar a similitude entre a ideia de utilitarismo apresentada inicialmente. Mas a dúvida sobre a equivalência da cidade com a ideia de maior número de indivíduos mantém-se. Se assim podermos considerar a cidade, a igualizar com a ideia de maior quantidade de indivíduos, seria totalmente correcto afirmar que a ideia de bem em Aristóteles, em relação ao indivíduo e à cidade, segue uma linha de pensamento utilitarista. Se não, dificilmente o podemos fazer. O meio mais simples de responder com segurança a esta questão seria colocar ao próprio Aristóteles um dilema moral: se podermos para salvar a cidade da sua destruição torturar apenas um dos seus habitantes, o que seria correcto fazer? Isto seria então causar mal a uma das partes para bem do todo.



[1] Cf. “Utilitarisme” em: Encyclopédie philosophique universelle, PUF, 1998, p. 2685.

[2] Aristóteles, Pol., 1253a15.

[3] Aristóteles, EN, 1094b5.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A imperatriz

A imperatriz acreditava no fatalismo. Do alto da sua varanda, o mundo um jardim eterno, as fontes opulentas com as suas bocas de pedra em vómitos contínuos, a imperatriz acreditava no fatalismo e no entanto, a imperatriz não se diz fatalista. Porque já não mais acredita no fatalismo? Não pode a imperatriz acreditar no fatalismo enquanto não-fatalista? Ah, que terrível enigma meu amigo. Em primeiro lugar, não nos podemos esquecer que o sujeito da nossa divagação é nem mais nem menos do que a soberana imperatriz da nossa grande nação. Na verdade meu amigo, estamos a tratar é da nossa nação e de como traçado o seu caminho pelos vales do tempo. Se a nossa imperatriz não acreditava no fatalismo, concluímos intuitivamente pela natureza da frase que a nossa imperatriz hoje já nele acredita. E no entanto sabemos que ela não é fatalista. Antes de tentarmos avançar mais no problema e saber como possível tal afirmação, meu amigo, discutamos antes sobre o significado de tal conclusão para a nossa nação. Parece-me correcto afirmar que se acontecer à nossa nação seguir um dos árduos e difíceis caminhos pelos vales do tempo, pouco ou nada a nossa imperatriz se espantará se o sábio povo fatalista que é o nosso se enraivar com as suas governações sem no entanto a moralmente castigar. Pois bem, se lá em cima estava escrito que a nossa imperatriz seria de má temperança para conduzir nações, que bem se pode fazer senão sermos filósofos e na mais pura temperança aceitarmos este fado? E eis porque certamente optou sabiamente a imperatriz por acreditar no fatalismo. Tenho a certeza que o meu amigo já deve ter reparado que sem querer responder directamente as perguntas que corajosamente há pouco nos colocamos, vemo-nos subitamente com uma delas respondida e com a outra praticamente desvendada: sendo a imperatriz a senhora suprema da nossa nação, como poderia ela delegar esse seu supremo poder a outra entidade que senão à sua própria pessoa e atribuir a responsabilidade do governo a uma força tanto invisível como inoportuna e inconcebível? Dito por outras palavras, de que serviria o poder de uma imperatriz se ela mesma comandada por um desígnio superior e inalcançável? E eis porque certamente optou sabiamente a imperatriz por não se dizer fatalista. E ora assim temos as nossas dúvidas respondidas! Que perspicaz imperatriz a nossa meu amigo!

Consciência da irrecuperabilidade do tempo

A obsessão pelo tempo foi substituída por um mórbido e desobediente desprovimento de vontade. A consciência nervosa, a urgência obcecada e...